Autonomia
o alivio da liberdade de poder fazer.
Esses dias, estava em casa e ouvi minha avó chorar (moramos no mesmo terreno, que é dela, no caso). Atualmente ela tem 87 anos, possui Alzheimer e já está bem debilitada. Anda a maior parte do tempo com andador ou cadeira de rodas. Ela tem muitos filhos e todos eles se revezam pra cuidar dela. Mas, para ela, chorar é algo quase da rotina, porque é diário; ela chora gritando “ai ai ai” e as vezes ela diz “não me judieeee” com uma entonação muito peculiar, triste e fofa ao mesmo tempo rs.
Pra quem ouve de longe, da mesmo pra dizer que tem alguém judiando ou maltratando ela, mas quem esta perto sabe bem quais horas são essas: quando alguém esta dando banho, trocando a fralda, dando de comer… quando alguém está cuidando.
Embora eu a ouça todos os dias, nesse dia em especifico, ao ouvi-la eu fiquei pensando, o que será que dói em ser cuidada? até pensei que, talvez, pela idade avançada, o corpo fique mesmo mais sensível e ela sinta dores que nós não sentimos, mas só poderei confirmar isso quando chegar aos 87 anos. Mas outro ponto me ocorreu, é que possivelmente não seja um choro de dor física, mas de ego, dor na dignidade, no orgulho, que todos nós temos.
Passamos uma vida aprendendo a ser independentes, mais do que aprendendo, sendo incentivados a isso. Uma criança é aplaudida quando sai das fraldas e consegue fazer xixi ou cocô no vaso/penico, os pais fazem festa quando o filho aprende a comer sozinho e o primeiro banho sozinhos? meu Deus! quase um adulto! Quando aprendemos a ser independentes isso é motivo de orgulho pra quem mais importa pra nós, então óbvio que continuaremos a buscar isso com todo afinco que nos seja possível. E, depois de aprendermos isso, passamos a vida tendo possibilidades de fazermos coisas pra nós mesmos e, puxa, que alivio não precisar esperar a boa vontade de um adulto pra preparar nosso alimento, pra nos vestir, isso significa, em alguma medida, “fazer o que que eu quero na hora em que quero/preciso”.
Para os filhos, uma ofensa que uma mãe não queira ser cuidada. E são incisivos em dizer, “nós não nos incomodamos, você cuidou de nós a vida toda”. Mas a mãe, que já cuidou, que fez com tanto amor, mas que muitas vezes se sentiu sim incomodada, com preguiça, entediada, sabe bem a meia verdade que essa frase carrega.
É fato que farão, mas é fato que em alguns momentos se incomodarão. E mais, não é o incomodo do outro que nos incomoda, é o nosso mesmo. Passar uma vida dono de si e de repente ter que aceitar que muito pouco pode fazer por si mesmo, deve ser mesmo de uma dor insuportável.
Então, entendi que o choro de “ai ai ai” talvez seja pela dor de ter que ser cuidado por outros, que não ela mesma; o “não me judie”, quando esta sendo vestida ou limpada, é o judiar da vergonha que esbofeteia a dignidade, que a gente faz questão de manter viva ao longo da vida. E agora, quando ouço o choro dela, dói em mim e dai eu tive certeza, que há dores maiores que as físicas.
Se a dor dela se trata disso mesmo, a dor que dói em mim é a de saber que não há nada que possa ser feito por ela. Não tem mais como desenvolver a autonomia, já foi, agora resta o mínimo do mínimo e é com esse pouco que ela vai precisar se satisfazer (ou não; e provavelmente não). O que pode ser feito é, deixar que o choro saia mesmo e poder ser forte pra ouvir sem esperar pelo silêncio; esperar que ela chore o quanto precisar. É poder não tentar convencer que não incomoda, porque isso não vai resolver que ela sinta o próprio incomodo, é poder dar lugar pra fala e deixa-la dizer, quantas vezes sentir vontade, que dói sentir o incomodo, que está doendo ali, naquela hora.
Quando, aqui de casa, eu a ouço chorar e sei que meus tios estão lá cuidando, eu desejo em oração que o cuidado a toque mais que tudo isso e que o amor deles possa abraçar a dor que é não poder mais cuidar de si mesma. Ainda mais ela que sempre precisou ser independente em tudo por ter perdido o marido muito cedo e nunca mais ter casado novamente.
Não sinto pena, porque sei que ela odiaria isso. Sinto compaixão, sinto que a vida é mesmo complicada, sinto que talvez a gente deva pensar mais sobre ser independente enquanto pode, pra aceitar mais fácil quando não puder ser.
Quando se perceber esperando muito dos outros, lembre-se o quanto é bom e libertador poder fazer por você mesmo e aproveite, porque a gente nunca sabe quando essa liberdade vai acabar.
Bom restante de semana! <3


Chorei dois mil litros e continuo chorando! Pegou forte aqui! 😭🤧
🥹🥲 maravilhoso